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PGR estuda pedir fim do sigilo de delação ao fazer nova denúncia

Deputados decidirão sobre acusação que está sob segredo de Justiça

PGR estuda pedir fim do sigilo de delação ao fazer nova denúncia

A Procuradoria-Geral da República (PGR) estuda pedir o fim do sigilo da delação premiada do doleiro Lúcio Funaro na nova denúncia contra o presidente Michel Temer. Esse é um caminho estudado por integrantes do grupo de trabalho da Lava-Jato na PGR diante da possibilidade de essa segunda denúncia contra Temer ser apresentada sob a proteção do segredo.

O entendimento que vigora na Lava-Jato em Brasília é que, sempre que a delação permanece em sigilo após a homologação, os atos relacionados a ela — como uma denúncia — também ficam sigilosos. Essa regra pode ser aplicada à denúncia contra Temer, segundo fontes que acompanham as discussões na PGR e no STF.

O que difere essa situação de todas as outras anteriores é que uma denúncia contra o presidente da República precisa ser submetida ao plenário da Câmara. A falta de precedentes de casos assim — sigilo de uma delação em denúncia contra o presidente — alimenta a indefinição sobre o que fazer, conforme integrantes do grupo de trabalho da investigação.

A nova acusação do procurador-geral da República vai incluir trechos da colaboração de Funaro, que deve permanecer em sigilo após homologação pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Assim, o conteúdo da peça como um todo ficaria em segredo, como já ocorreu com outras denúncias da PGR relacionadas à Lava-Jato.

O ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato no STF, pode decidir sozinho sobre o pedido para derrubar o sigilo ou a levar o caso a plenário. Caso o tribunal derrube o segredo, haveria um curto período de denúncia sigilosa, entre a apresentação ao STF e a chegada à Câmara para análise pelos deputados.

Os depoimentos da delação já foram finalizados na PGR e a colaboração depende da homologação de Fachin. O ministro sinaliza que que uma decisão sobre derrubar esse segredo deve partir do plenário do tribunal, por envolver o presidente da República. Para que existam decisões nesse sentido, é preciso que a PGR ou o delator faça um pedido. Em tese, segundo fontes com acesso às discussões sobre o assunto no STF, a discussão sobre o sigilo pode ser decidida antes do encaminhamento à Câmara.

Janot já decidiu que vai usar as acusações do doleiro na segunda denúncia dirigida a Temer, por obstrução de Justiça e organização criminosa. Funaro operava repasses de propina ao grupo do PMDB na Câmara. O site do GLOBO revelou ontem que, em um dos depoimentos da delação, o operador confirmou ter recebido dinheiro do empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo J&F, para permanecer em silêncio.

O procurador protocolou a primeira denúncia, por corrupção passiva, em 26 de junho. Dois dias depois, Fachin decidiu que ela seria enviada à Câmara sem a necessidade de uma defesa prévia por Temer. Em 29 de junho, a presidente do STF, Cármen Lúcia, enviou a peça para a deliberação pelos deputados. A acusação foi rejeitada pela maioria dos parlamentares em 2 de agosto. A denúncia, desde o início, foi tornada pública.

Uma denúncia da PGR contra o ex-presidente e senador Fernando Collor (PTC-AL), por exemplo, ficou um ano e dois meses sob sigilo, em razão de delações premiadas que eram mantidas em segredo. Collor foi acusado de receber R$ 29 milhões em propinas a partir de contrato de troca de bandeira de postos de combustível assinado entre BR Distribuidora e a empresa Derivados do Brasil (DVBR).

 

 

Fonte: O Globo