
O Planalto e os aliados políticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estão, realmente, assustados com a persistente queda da popularidade do mandatário e, além de quebrar cabeça na análise das causas, trabalham com urgência num esforço concentrado para recuperar a confiança no governo. A pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem mostrou que a desaprovação ao desempenho do presidente Lula subiu, inclusive, no Nordeste – que já foi reduto cativo do líder petista e chegou, pela primeira vez, a um cenário de empate técnico com os índices de aprovação. A desaprovação subiu nove pontos percentuais em relação a janeiro e atingiu 46%. Já o percentual dos que aprovam o jeito de Lula de governar na região caiu 7 pontos percentuais, para 52%. Como a margem de erro nesse recorte do levantamento é de quatro pontos percentuais, os índices de aprovação e desaprovação estão empatados tecnicamente.
É a primeira vez que isto acontece no atual mandato de Lula na região que é reduto eleitoral do presidente da República. Como se sabe, Lula venceu Jair Bolsonaro no Nordeste no segundo turno das eleições de 2022, cravando 69,34% dos votos válidos. A região foi a única em que ele derrotou o ex-presidente e muito do prestígio que lhe foi atribuído deveu-se não somente às origens nordestinas de Lula mas à aceleração do projeto de transposição das águas do rio São Francisco, considerado redentor para a população mais pobre e que com o tempo acabou sofrendo imprevistos e descontinuidade efetiva. Jair Bolsonaro teve 30,66% dos votos válidos no Nordeste, que é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. A pesquisa Genial/Quaest revelou que no Sudeste a desaprovação beira 60% contra 37% de aprovação e no Sul alcança 64% de rejeição ante 34% de aprovação. No Centro-Oeste/Norte, os índices são de 44% de aprovação e 52% de desaprovação.
De acordo com o levantamento, a desaprovação segue em crescimento contínuo desde julho de 2024, e este fenômeno intriga os estrategistas palacianos e os aliados políticos do governo. Informações de Brasília dão conta que o governo, para fazer frente ao desgaste nas pesquisas de opinião, prepara uma ofensiva de comunicação destinada a recuperar o apoio popular – e já nesta quinta-feira o presidente lidera um evento intitulado “O Brasil dando a volta por cima” no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, com a apresentação de um balanço das principais realizações dos dois primeiros anos do terceiro mandato do presidente Lula. A estratégia concebida pelo Planalto passa por apresentar dados positivos da economia, da geração de empregos, de retomada de programas sociais e, também, do protagonismo internacional brasileiro. Entre os destaques da ofensiva está a revelação de que o país voltou a figurar entre as dez maiores economias do mundo, com crescimento do PIB acima da média global – 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. O desemprego também teria atingido seu menor patamar num período de 12 anos (6,6%) e o salário mínimo voltou a crescer acima da inflação.
Apurou-se que outro foco da apresentação será a área social, avaliada como a principal vitrine do governo de Lula. O Bolsa Família fortalecido atende mais de vinte milhões de lares, conforme os dados oficiais, enquanto o programa Pé de Meia já beneficia quatro milhões de estudantes do ensino médio com incentivo financeiro e mais de 1 milhão de alunos passaram a estudar em tempo integral. Na saúde, o governo dirá que dobrou o número de profissionais do programa Mais Médicos, levando atendimento a 4,5 mil municípios. O programa Farmácia Popular, enquanto isso, voltou a oferecer 100% de seus medicamentos de forma gratuita e o número de cirurgias eletivas no SUS bateu recorde – mais de 14 milhões em 2024. Na área ambiental, o Palácio do Planalto comemora a maior redução de desmatamento na Amazônia em uma década com uma queda de 46% em relação a 2022, bem como a primeira queda na região do Cerrado em cinco anos. A imagem internacional do Brasil também será usada como trunfo. Foram reabertos mais de 340 mercados para o agronegócio e o país sediará, ainda em 2025, eventos de peso como a Cúpula do BRICS e a COP30.
O governo também apresentará promessas para os próximos dois anos, a exemplo de novas obras do Novo PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, que já mobiliza mais de R$ 1,8 trilhão, e a meta de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil em 2026 (tema que está prejudicado na Câmara dos Deputados por causa da obstrução encetada pela bancada bolsonarista do PL como represália à não votação em caráter de urgência do projeto de anistia para os envolvidos em atos antidemocráticos de 8 de janeiro em Brasília). Ao reunir dados e narrativas positivas, segundo interlocutores de Lula, o governo tenta mudar a percepção pública e reforçar a ideia de que o país, após crises e retrocessos, está em recuperação. O presidente Lula tem dito que após os dois primeiros anos terem sido marcados pelo “plantio” chegou a hora da colheita. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, define a queda de popularidade de Lula como “tempestade perfeita”, aludindo a fatores como a crise do Pix e até mesmo o acidente do presidente no banheiro do Alvorada para justificar a desaprovação. Randolfe, que é do PT-AP, admite que a alta do preço dos alimentos é outro fator preponderante. A verdade é que o governo precisa agir – não apenas com propaganda ou marketing, mas com resultados concretos para que sua popularidade não venha a derreter ainda mais, comprometendo eventuais chances de reeleição de Lula em 2026.