
Pensei muito se, para refletir sobre esse assunto, usaria da linguagem escrita ou falada, que é minha marca na comunicação.
Escrever é um risco maior quando se tem gente que aprendeu a ler o beabá, mas não aprendeu a interpretar, não aprendeu a ter leitura crítica de mundo.
E aí começo com uma frase que gosto muito, do poeta Antônio Vieira: “Os nomes dos poetas populares deveriam estar na boca do povo e no contexto de uma sala de aula.”
A frase pode ser interpretada como uma crítica à falta de reconhecimento dos artistas populares na escola de base, que deveria ser um espaço de acesso ao conhecimento sensível e crítico do mundo. O conhecimento artístico e o conhecimento formal podem ser determinantes para as escolhas e visões de mundo. A transmissão de algo que se considera importante para a formação do ser é um desafio para os artistas.
Por que começo trazendo essa reflexão?
Mesmo com “preguiça” (como falam lá em Brasília) de ouvir ou ler postagens em redes sociais de gente que não sabe a diferença entre movimento cultural e evento de massa, fazendo a mesma comparação inútil e vazia sobre a quantidade de público que foi ao Bloco Muriçocas do Miramar, vou tentar dizer algo — para não ter que desenhar, até porque nem sei desenhar…
Quando a boa imprensa da Paraíba trata com tanto respeito e carinho a cobertura do Muriçocas, é porque há profissionais nesses espaços que conhecem a história, a importância, a tradição, a resistência e, acima de tudo, a essência do MOVIMENTO CULTURAL MURIÇOCAS DO MIRAMAR, que teve o primeiro título estadual de Patrimônio Imaterial Cultural da Paraíba.
Sim, não se trata apenas de um bloco, que é pioneiro e criador de toda essa prévia carnavalesca que estão dizendo ser a maior do Brasil — estamos falando de um MOVIMENTO CULTURAL.
Por ser o primeiro, o bloco um dia foi o maior em público. Por ser o precursor, chegou a ser o segundo maior bloco pré-carnaval do Brasil, atrás apenas do Galo da Madrugada.
Quando a boa imprensa fala em “maior”, é maior em TRADIÇÃO, maior em sua ESSÊNCIA, maior em sua missão de RESISTÊNCIA. Maior na ESTÉTICA, na PLÁSTICA do desfile. Maior na CRIATIVIDADE DO PÚBLICO, maior na INCLUSÃO, maior no que realmente é CULTURA DE CARNAVAL, que bebemos e nos assemelhamos ao que acontece em Olinda e Recife.
Claro, não poderia ser diferente. Somos vizinhos. Fomos, por muito tempo, Capitania Hereditária.
Quem já tinha visto o espetáculo que foi o BOI DA MACUCA E A ORQUESTRA DO MAESTRO OSEÁS, arrastando uma multidão sedenta por frevo e tradição?
Quem já tinha visto oito grupos de maracatus, todos da PARAÍBA, sendo reverenciados e aplaudidos com todo respeito que merece nossa ancestralidade de povos africanos e indígenas?
É SOBRE ISSO. NÃO É SOBRE QUANTIDADE, E SIM SOBRE QUALIDADE DE PÚBLICO.
Cada bloco atrai o público que deseja pelo tipo de música e sons que coloca na rua.
Se eu fosse contextualizar aqui o que esse projeto, que um dia foi um fenômeno, já sofreu de ataques e boicotes… Ao contrário do que acontece em Pernambuco e na Bahia, seria coisa para um livro.
Ao longo desses 39 anos, as prévias foram se moldando a outro modelo — de negócios — com outra lógica, que foge completamente da essência dos dois resistentes: Muriçocas e Cafuçu.
Quem realmente se conecta e entende o que se propõe esse movimento de cultura de inclusão dos artistas e grupos populares, como o que vimos nesta última Quarta-feira de Fogo, 26 de fevereiro, jamais vai entrar nesse besteirol de comparar público entre os blocos feitos para a massa e longe da cultura de raiz e popular.
Isso é tão óbvio que realmente me dá preguiça de tentar explicar a quem só sabe consumir o que a indústria de alguns — muitos com fins lucrativos — impõe para um povo que não tem, desde a sala de aula e nem dentro de casa, na ponta da língua, os nomes dos nossos poetas populares.
Evoé!
Até os 40 anos!!
Fonte: Diário de Vanguarda
Créditos: Polêmica Paraíba