
Lembro ter entrevistado Ronaldo Caiado na TV Cabo Branco em 1989 quando ele era candidato a presidente da República nas primeiras eleições diretas pós-ditadura militar, em que Lula estreou em alto estilo avançando para o segundo turno contra Fernando Collor de Mello, este famoso com a propaganda enganosa de “caçador de marajás” nas Alagoas. No pleito daquele ano, nomes ilustres como Ulysses Guimarães e Mário Covas não sensibilizaram o eleitorado, ávido por mudança, sequioso por novidade. Um certo professor chamado Enéas Carneiro, do Prona, divertiu telespectadores com promessas mirabolantes, mas não foi longe. Caiado havia fundado a União Democrática Ruralista (UDR) e, com forte sotaque goiano, se defendia na TV dizendo ser “confundido” nas grandes cidades como “o candidato do interior”. Para muitos, não passava de um oportunista – e, apesar da juventude, Caiado ficou em décimo lugar, com menos de 1% dos votos. A UDR foi definida pela Fundação Getúlio Vargas como símbolo da radicalização patronal rural contra a reforma agrária, recorrendo, até, a métodos violentos de intimidação para defender latifundiários.
Quase 40 anos depois, Ronaldo Caiado volta aparentemente “repaginado” à cena política, desfrutando da posição como governador de Goiás, Estado onde detém popularidade e aprovação. Para o resto do Brasil, permanece um desconhecido – e este será o primeiro desafio a ser vencido nas eleições de 2026, para as quais, com bastante antecedência, ele se lançou pré-candidato à Presidência, ontem, na expectativa de ocupar um vácuo político-eleitoral que começa a se prever ante a iminente inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para concorrer contra Lula. O político goiano, inegavelmente, acumula décadas de confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o Partido dos Trabalhadores e, diante da falta de apoio declarado de Bolsonaro, exaltou a importância de ter independência para governar e arrematou: “Eu não sou preposto de ninguém”. Na largada, escolheu seu público preferencial – o que é ligado ao agronegócio, e criticou iniciativas do governo Lula voltadas para os pobres e por ele definidas como “populistas”.
Caiado é respeitado nacionalmente pelo menos num quesito: segurança pública, diante da ofensiva desfechada contra o crime organizado no seu Estado. Mas este é, também, o seu calcanhar de Aquiles, pois Goiás é o terceiro Estado com a maior taxa de mortes violentas cometidas por policiais em 2023, de acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública em sua edição mais recente. A esse respeito, o governador de Goiás tem afirmado o seguinte: “Quando o crime é confrontado com a polícia, quem é que morreu nesse enfrentamento? A tropa do Estado é preparada para o confronto”. Filiado ao União Brasil, que está prestes a se federar com o Partido Progressistas, Caiado está atualmente inelegível graças a uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Estado, tendo impetrado um recurso que deverá ser julgado na próxima terça-feira. O TRE de Goiás entende que Ronaldo Caiado cometeu abuso de poder ao utilizar o Palácio das Esmeraldas, residência oficial do governador, para realizar eventos em apoio a Sandro Mabel, candidato do União Brasil que venceu a disputa pela prefeitura de Goiânia no ano passado.
O lançamento da pré-candidatura de Ronaldo Caiado ao Palácio do Planalto ocorreu em meio à disputa interna no União Brasil, dividido entre lideranças favoráveis a um nome próprio para a presidência da República e outras favoráveis a um caminho a ser decidido em conjunto com o PP, diante das versões de que a proposta de federação idealizada por caciques dos dois partidos está avançando mais rápido do que se pensava. Presidente do Consórcio Brasil Central, bloco de colaboração entre Tocantins, Distrito Federal, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Maranhão, Caiado tem confrontado governadores de Estados que formam o Consórcio Nordeste e que, em sua maioria, estão alinhados com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por outro lado, o pré-candidato do União Brasil não conta com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro para substituí-lo em 2026. Primeiro porque Bolsonaro insistirá em quebrar a inelegibilidade e ser o candidato; em segundo lugar porque o ex-presidente tem outros nomes de sua preferência no bolso do colete para dar combate à tentativa do presidente Lula de alcançar um novo mandato nas urnas.
A divisão entre os líderes da direita conservadora é encarada por analistas políticos como uma pedra no meio do caminho da estratégia para barrar um novo mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, por sua vez, busca se fortalecer tecendo alianças com forças de centro e acenando com perspectivas de recuperação do atual governo para derrotar os índices preocupantes de desaprovação detectados em pesquisas de institutos especializados. Caiado é, assumidamente, um representante das forças oligárquicas e conservadoras, comprometido com interesses do grande capital. Ele fez questão, aliás, de enfatizar, ontem, seus ideais conservadores, buscando assegurar sua proximidade com o eleitorado dessa faixa. “Graças a Deus, eu sempre estive dentro dos meus ideais e convicções cristãs, e ao mesmo tempo democráticas, defendendo aquilo que é a boa gestão, a boa prática política, que é um bom exercício da nossa atividade como homem público”, frisou. Vale lembrar que em 2018 Ronaldo Caiado tentou articular uma nova candidatura presidencial quando era senador, mas desistiu antes da oficialização e optou por concorrer ao governo estadual. Daí persistirem as dúvidas quanto à solidez da pré-candidatura lançada ontem em Goiás.